sábado, 23 de março de 2013

ÁGUA: fonte de ENERGIA, fonte de VIDA!


Assinalou-se ontem, 22 de março, o Dia Mundial da Água. Tivéssemos nós baptizado o nosso planeta a partir de uma imagem obtida do espaço e provavelmente teríamos optado por chamá-lo “Água” e não “Terra”. Embora o mundo em que habitamos esteja coberto em cerca de 70% por água (“Planeta Azul”) mais de 97% desta é salgada. Dos cerca de 3% de água doce existente, a maior parte está “presa” em neve e gelo ou armazenada no subsolo, água esta que estamos a esgotar a um ritmo muito superior à sua taxa de recuperação ou recarga.
Quimicamente, nada poderia ser mais simples: dois átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio e temos… água! A sua imortal fórmula química – H2O – é, provavelmente, a mais conhecida do mundo. Numa perspectiva humana, a simplicidade não é assim tão linear. Ao longo dos tempos, o homem consolidou a tendência para considerar a água como um direito adquirido à nascença. No entanto, a realidade vai destruindo a pouco e pouco esta fantasia. Efectivamente, a questão da água e a nossa relação futura com este recurso vital para todos os organismos vivos existentes na Terra, assenta, por um lado, numa natural pressão demográfica resultante do aumento exponencial da população mundial e, consequentemente, do aumento da procura do precioso líquido. Por outro lado, temos o aumento descontrolado e irracional do consumo de água potável em alguns países mais desenvolvidos. Convém recordar que, além de escassa, a água é um recurso natural irregularmente disponível no planeta. Por exemplo, nos Estados Unidos são gastos diariamente cerca de 7500 milhões de litros de água potável para irrigar campos de golfe enquanto no Norte do Quénia, mulheres percorrem, a cada dia que passa, vários quilómetros em busca de meia dúzia de litros de água lamacenta e contaminada para sobreviverem. Existem, ainda, outros factores mais complexos e imprevisíveis como as alterações climáticas que afectam globalmente a dinâmica meteorológica e hidrológica da Terra e, consequentemente, a quantidade e qualidade da água disponível para consumo. 
Racionalizar o consumo de água é promover a cidadania! Pense nisto!

HORA DO PLANETA: HOJE ÀS 20H30, ATREVA-SE A CONTRIBUIR PARA A SUSTENTABILIDADE DO SEU PLANETA!



Hora do Planeta: alguns números da edição de 2013
A Hora do Planeta assinala-se anualmente desde 2007 e é uma iniciativa da WWF – World Wide Foundation. É um dos momentos do ano mais esperado para milhões de pessoas que insistem em fazer melhor, todos os dias, pela sua sustentabilidade. Hoje, entre as 20h30 e as 21h30, cidadãos, instituições, empresas e comunidades de todo o mundo desligam as luzes numa ação simbólica para chamar a atenção de quem ainda pensa que a sustentabilidade é um chavão académico. O objetivo á alertar para a necessidade de se promover um consumo mais racional de energia, evitando desperdícios e utilizações desnecessárias. É a maior ação ambiental voluntária do mundo e é fácil perceber porquê. Para participar, basta a qualquer cidadão desligar as luzes e equipamentos que consomem eletricidade durante uma hora. Fácil! 
 
Em 2013, mais de 150 países e territórios vão participar no evento, um recorde em relação às edições anteriores. Palestina, Tunísia, Galápagos, Suriname, Guiana Francesa, Santa Helena e Ruanda estão entre aqueles que entraram na Hora do Planeta pela primeira vez.
Atualmente 70% da eletricidade produzida no mundo é obtida através de combustíveis fósseis. 
 As consequências ambientais e económicas são bem conhecidas e urge combater, à escala local com consequências globais, o desmesurado uso de energia elétrica em situações que poderiam muito bem ser evitadas.
É um gesto, um compromisso que cada um de nós pode e deve assumir consigo próprio, com os seus semelhantes e com o mundo que nos alberga. Lembre-se que as gerações futuras viverão no planeta que nós lhes legarmos, para o bem ou para o mal.
Adira à Hora do Planeta. Não custa nada.



quinta-feira, 21 de março de 2013

A CRISE GEOPOLÍTICA NO CHIPRE E A QUESTÃO ENERGÉTICA



Tenho ouvido variadíssimos comentários sobre a atual situação em Chipre. Todos parecem desviar-se, estranhamente, do núcleo geopolítico que emerge da crise financeira na ilha: energia, nomeadamente gás natural.
Chipre possui metade das potenciais reservas de gás natural da região Chipre-Israel-Líbano-Egito. Ao que indica um estudo da US Geological Survey, do total de 120 triliões de pés cúbicos de gás natural existente no mediterrâneo oriental, cerca de metade encontram-se nos domínios cipriotas. Há ainda o gás e petróleo gregos (algo de que quase ninguém fala). De acordo com o Deutsche Bank, as reservas de gás natural existentes no mar grego cobrem 107% do PIB daquele país, num valor de 600 mil milhões de euros, mais do que a sua atual dívida. Ainda segundo a Reuters, um recente estudo geológico aponta que estas reservas estão localizadas a sul de Creta e correspondem a 6 anos do total de consumo de gás natural europeu. E estes números só são correspondentes ao gás natural, pois ainda existem as potenciais reservas de petróleo.
Se as reservas de gás se confirmarem, a Grécia será o 15º maior produtor mundial deste combustível.
Portanto, se somarmos o gás natural grego ao cipriota e israelita, constata-se que a região do Mediterrâneo Oriental possui um potencial de abastecimento do mercado de europeu para um consumo de mais de 10 anos. Esta nova plataforma energética europeia revela-se fundamental para atenuar a dependência extrema do gás fornecido pela Rússia, o maior abastecedor europeu.
Se a tudo isto juntarmos a superior posição geoestratégica da ilha, num ponto central entre o Líbano, Israel, Turquia e Grécia, nota-se que potencial do Chipre tornar num ponto estratégico para a produção de gás natural, e para a sua expedição via gasoduto ou então liquefeito por via marítima, é mais do que evidente.
Por tudo isto não se estranha o interesse da Gazprom russa para resgatar Chipre em troca da exclusividade dos direitos de exploração do gás e petróleo, face ao autêntico disparate que a Europa, comandada pela Alemanha, acabou de sugerir com o roubo de uma percentagem dos depósitos bancários existentes nos bancos cipriotas. Se a Gazprom concretizar esta proposta, e se conseguir, ainda, adquirir a maior empresa de gás grega (DEPA), a Alemanha irá colocar nas mãos da Rússia o domínio logístico e económico ao mediterrâneo. Devido ao conflito político entre a Grécia e a Turquia verifica-se que a questão energética ainda se torna mais complexa e delicada. Por isso, de um ponto de vista europeu, a abordagem alemã face à questão financeira cipriota é claramente incompreensível e ilógica.
Falta ver a posição dos Estados Unidos face à evolução da dinâmica geopolítica da energia nesta cada vez mais emergente zona energética europeia. Recorde-se que a americana Noble Energy detem a licença de exploração do campo de gás off-shore cipriota Aphrodite (bloco 12 na foto abaixo) onde se estimam existir 7 triliões de pés cúbicos daquele combustível. 

domingo, 17 de março de 2013

QUEIMAR O SOL "ENTERRADO"

A energia solar é muitas vezes criticada pela sua baixa eficiência – tipicamente apenas cerca de 10% da luz solar que atinge um comum painel solar comercial será convertida em eletricidade. Críticas semelhantes são atribuídas aos biocombustíveis, que têm uma taxa de conversão de energia solar-combustível  inferior a 2%. Mas como comparar essas eficiências com outras fontes de energia como o petróleo?
Primeiro consideremos o seguinte. Na realidade e apesar de tudo o que se possa dizer, apenas existem três fontes primárias de energia: nuclear, geotérmica e solar (pode existir uma pequena exceção que é a energia das marés, alimentada pelas forças gravitacionais tanto do sol como da lua). A energia solar é a fonte original da biomassa, da energia eólica, dos combustíveis fósseis, e até mesmo da energia hidroelétrica. O sol cria gradientes de temperatura na superfície da Terra, que geram o vento. A fotossíntese da biomassa vegetal é produzida por fotões solares. É essa biomassa que ficou enterrada ao longo de milhões de anos e que contribuiu para a formação do petróleo que hoje se extrai do subsolo. As centrais hidroelétricas aproveitam a energia potencial da água. Mas a água tem de surgir de alguma forma. É o sol que cria a água no estado líquido através da evaporação, que é posteriormente libertada sob a forma de chuva.
Essas “fontes” de energia - eólica, biomassa e hídrica - acabam por não ser verdadeiramente fontes primárias de energia. São apenas maneiras diferentes de converter a energia solar noutra forma.
Ao comparar estes tipos de energias, é importante pensar sobre a eficiência com que cada tipo converte a energia solar noutra forma útil de energia. Nos casos da eólica, hídrica e solar, a forma utilizável de conversão é geralmente eletricidade; com biomassa e petróleo, obtemos vários combustíveis líquidos que podem ser usados para mover seu carro ou gerar eletricidade.
Sabemos que a eficiência da conversão do painel solar é de, tipicamente, cerca de 10%, e a eficiência de conversão de sol em biomassa é de aproximadamente 2%. Como se poderá constatar, estes valores acabam por ser muito bons!
Vamos olhar para os combustíveis fósseis, petróleo em particular. Apesar da existência de uma teoria que sustenta a formação inorgânica do petróleo, a ciência continua a explicar a formação deste hidrocarboneto de origem fóssil como o resultado da evolução geológica do planeta. De uma forma simples, o petróleo resulta da acumulação de matéria orgânica vegetal e animal ao longo de milhões de anos que foi sendo coberta por formações rochosas sedimentares cujo peso conjugado com o calor da terra, formou  a matéria negra e viscosa a que chamamos crude ou simplesmente petróleo. Embora existam registos da utilização de uma matéria escura e pastosa na construção de estradas e impermeabilizações ou até mesmo para queima que remontam a 4000 a.c., a era moderna da exploração de petróleo inicia-se em 1859, na Pensilvânia (EUA). Certo é que o “ouro negro” como é hoje designado, se manteve “escondido” durante dezenas de milhões de anos no interior da terra, mais ou menos próximo da superfície. É pelo facto de demorar todo este tempo a formar-se que o petróleo “encaixa” nas designadas fontes energéticas não renováveis.
 Abundante e energeticamente denso, o petróleo permitiu ao mundo desenvolver-se e produzir coisas incríveis. E todos nós consideramos que os combustíveis fósseis, incluindo o petróleo, como fonte de energia, são eficientes. Mas, estes são, na verdade, utilizados como uma forma secundária de energia.
Vamos observar as taxas de eficiência de cada etapa da “produção” de petróleo:
- Primeiro, é necessário luz solar para fazer crescer as plantas (matéria orgânica) através da fotossíntese, num processo de baixa eficiência (1,7%)*.
- Apenas uma escassa percentagem destas plantas (2%)*, ficou “aprisionada” no subsolo da Terra e contribuiu para a formação do petróleo.
- Cerca de 74%* desta biomassa “aprisionada” se transformou em petróleo.
- Apenas cerca de 2,8%* do petróleo formado ficou em jazidas acessíveis e exploráveis.
- Aproximadamente 25%* desse petróleo é recuperável pelo ser humano.
- Cerca de 90% do petróleo extraído é refinado em produtos petrolíferos – incluindo combustíveis - uma vez que cerca de 10% é absorvido no processo de extração e da própria refinação.
- Finalmente, os motores de combustão interna possuem cerca de 20% de eficiência.
Fazendo algumas contas com base nestes números conclui-se que o petróleo enquanto fonte de energia e desde a conversão de energia solar noutra forma de energia (mecânica, eletricidade ou calor) possui uma eficiência de apenas 0,000003%.
Dito de outra forma, se quisermos 1 Watt de energia a partir de painéis solares fotovoltaicos dos que atualmente de vendem, precisamos de cerca de 10 Watt de luz solar. Se quisermos 1 Watt de energia a partir de biomassa, vamos necessitar de cerca de 50 Watt de luz solar. E se pretendermos 1 Watt de energia a partir do petróleo, necessitamos de mais de três milhões de Watt de luz solar.
Felizmente, hoje em dia já não precisamos apenas no processo natural "terrestre" de formação de combustíveis. Temos, ainda, alguma abundância de petróleo armazenado na crosta, mas cada vez mais caro de extrair. Quando este petróleo acabar  temos maneiras  de produzir  combustíveis sintéticos usando biomassa bem mais eficientes do que a forma como o faz a Terra naturalmente. O  petróleo é abundante, por agora, mas como se vê, a energia solar e da biomassa são muito mais eficientes.



(*) Referência:  “Burning Buried Sunshine: Human Consumption of Ancient Solar Energy” - Jeffery Duke.

Mesmo considerando outros valores típicos de eficiência por consulta de outras fontes, a ordem de grandeza concluída nesta abordagem não se altera significativamente.