domingo, 14 de abril de 2013

O EXCESSO DE PRODUÇÃO ELÉTRICA RENOVÁVEL E O PREVISÍVEL AUMENTO DAS TARIFAS

Há dias escrevi aqui e a propósito da quase autonomia energética nacional no setor da produção de energia elétrica e excesso de produção, nos últimos dias de março e início de abril devido ao mau tempo que se instalou no país nesse período, que este facto aparentemente positivo acarretaria custos importantes para os consumidores. A situação mantém-se sendo já matéria de análise na comunidade online da especialidade.
Diagrama de produção 11 Abril 2013 - Fonte: REN
De facto assistiu-se a um aumento significativo da produção de energia por via das renováveis, especialmente no setor da produção em regime especial (PRE) que como se sabe implica um custo pago ao produtor acima do preço de mercado que é refletido nas faturas dos consumidores (exceto industriais).
Recordo que é a própria ERSE - Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos que argumenta como factor determinante na política tarifária estes sobrecustos com a PRE como se pode ler neste documento e que transcrevo aqui:
Conclusão: O aumento da PRE e a diminuição do consumo são justificações para o aumento das tarifas. Este aumento é atenuado através do adiamento do pagamento do défice tarifário que se vem acumulando ao longo dos anos e que já ronda os 4 mil milhões de Euros e que vai ser pago pelos consumidores. Um aumento da PRE, se à partida pode parecer apenas um facto positivo, tem este senão: causa o aumento das tarifas.
Atente-se agora nas estatísticas nacionais para o primeiro trimestre de 2013:
Fonte: REN
Observa-se um claro aumento da PRE (45,9%) e uma redução da produção térmica (-48,6%) o que do ponto de vista ambiental é muito positivo uma vez que se traduz na redução de emissões e ajuda no cumprimento das metas europeias a que Portugal está obrigado. Paralelamente o consumo diminuiu 2,3% neste período mantendo a tendência e as previsões feitas pela própria ERSE.
Se juntarmos estes dois dados e mesmo considerando que a situação (quase 100% de energia elétrica produzida por fontes renováveis) não se poderá manter ao longo do resto do ano, adivinha-se o que aí vem em finais de 2013 quando a ERSE apresentar a sua proposta de tarifas reguladas (aplicáveis aos Açores). Este aumento já se fará sentir na próxima revisão trimestral da ERSE para o mercado continental e para os consumidores no mercado regulado.

O NOVO SANGUE DA INSUSTENTÁVEL GLOBALIZAÇÃO

Há pouco mais de cinquenta anos o geólogo americano Marion King Hubbert apresentou o célebre modelo da teoria do Pico do Petróleo (Peak Oil). Hubbert defendeu o inevitável esgotamento das reservas de petróleo do mundo, teorizando que o crescente consumo comparado ao esgotamento das reservas existentes e diminuição de novas descobertas levaria ao fim do mundo tal como o conhecemos, cujo desenvolvimento assenta no consumo desmesurado e irracional deste recurso. Esta projeção resulta num gráfico com a forma aproximada de um sino que prevê o crescimento do petróleo disponível até um ponto máximo (pico) seguido por um período de declínio até à exaustão dos campos petrolíferos.
A teoria de Hubber foi ridicularizada por muitos especialistas, principalmente os mais ligados ao setor petrolífero. Outros mantiveram-se atentos e acompanharam a evolução comparativa do que previra Hubbert com a realidade. Parece que, com um intervalo de erro de poucos anos, Hubbert terá tido razão ao formular a sua tese do Pico do Petróleo. Só que o geólogo apenas se referia ao esgotamento do chamado petróleo convencional, aquele que se extrai a partir de terra ou junto à costa a profundidades reduzidas. Hubbert não contou com a evolução da tecnologia de extração nem com as novas descobertas do designado petróleo não convencional. Muitos dos que atualmente ridicularizam Hubbert têm acesso a uma realidade completamente diferente. Efetivamente, hoje existe a possibilidade de procurar e extrair petróleo utilizando técnicas inimagináveis nos tempos de Hubbert, também por isso, apelidadas de não convencionais. O petróleo de xisto (shale oil), as areias betuminosas (oil sands), o petróleo de águas profundas e ultra profundas, entre 2000 e 2500 metros de profundidade, são exemplos de alternativas emergentes no quadro energético atual. Existe um estudo recente da brasileira Petrobras – o Brasil é um país líder nas tecnologias petrolíferas offshore – no sentido de explorar recursos teoricamente existentes abaixo dos 5000 metros de profundidade (camada pré-sal).
 A existência destas reservas não são, na sua maioria, descobertas recentes. Todavia a tecnologia imatura, o custo de extração e acima de tudo o baixo preço do barril de crude foram durante anos fatores impeditivos da sua exploração em grande escala. A realidade que o mundo nos oferece hoje é bem ilustrativa do caminho incontornável que a humanidade trilha para matar a sua sede de petróleo. Nem as principais agências internacionais de energia, nem mesmo as gigantes petrolíferas escondem este facto: as reservas de petróleo convencional continuam a diminuir a um ritmo preocupante enquanto as novas descobertas seguem a mesma tendência. Contrariamente, o consumo aumenta impiedosamente sustentando o crescimento dos países emergentes. Desta forma, não é de estranhar que os processos extrativos até há bem pouco tempo inviáveis, técnica e economicamente, surjam como a salvação da humanidade no domínio energético nos próximos anos. Poder-se-ia perguntar, afinal, se praticamente todos os dias surgem notícias de novas descobertas não convencionais, qual o motivo que leva a Agência Internacional da Energia a continuamente prever em alta a evolução do preço do petróleo nos próximos anos. 
A justificação, não sendo a única, reside neste facto incontornável: a extração será cada vez mais difícil e dispendiosa. O anúncio de novas descobertas, habilmente manipuladas pelos mercados petrolíferos e especulativos com estratégicas políticas à mistura podem até, pontualmente, provocar a queda dos preços mas rapidamente a subida torna-se uma realidade.
Concluindo, só preços altos garantem a viabilidade da extração destas “novas” formas de produzir o sangue do progresso. Só não se sabe até quando correrá nas veias desta insustentável globalização.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

COMO A CHINA DOMINA O MUNDO



Há poucos dias li esta notícia na página online do jornal Expresso e que me chamou particularmente à atenção:
“Os investimentos chineses alastram por todo o globo e têm alvos bem identificados: os recursos naturais mundiais. A investida começou, com grande estrondo, em 2005, em África. Hoje, a China tem espalhados pelo mundo investimentos no valor de 472 mil milhões de euros. No início deste ano, a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) fechou aquele que é considerado o mais chorudo investimento chinês fora das suas fronteiras: por 11,8 mil milhões de euros, adquiriu a petrolífera canadiana Nexen. Com este negócio, a China passou a ter maior presença em pontos estratégicos do mapa das reservas petrolíferas, como o Golfo do México ou o Mar do Norte. Esta aquisição é o corolário da estratégia chinesa para chegar a recursos naturais capazes de alimentar uma população de 1,3 mil milhões de chineses e dar gás ao estrondoso crescimento económico chinês da última década. O caminho chinês começou em África, mas hoje está espalhado por todo o mapa-mundo. No pódio dos países recetores do investimento chinês estão a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá. A China é já o maior parceiro comercial e investidor estrangeiro no Brasil. Portugal também faz parte do mapa dos investimentos chineses: depois da tomada de posições na EDP, REN e Galp (na operação da Petrogal no Brasil), outras empresas chineses já anunciaram intenções de investir no mármore português e em parques de energia solar em Portugal. Mais recentemente, a Beijing Enterprises Water Group comprou a operação da francesa Veolia em Portugal, por €95 milhões.”
A acompanhar a notícia encontra-se uma infografia muito interessante e que recomendo vivamente. Destaco que 46.9% do total de investimento externo chinês (231 mil milhões), praticamente metade, é no setor energético.
Esta notícia apenas vem confirmar o que tantas vezes já escrevi: domina o mundo quem domina os recursos energéticos, ao nível da exploração e do desenvolvimento tecnológico. E os chineses apenas poderão continuar a crescer economicamente se “matarem” a sua sede energética dominando os recursos existentes a nível mundial. Sem energia não há economia.
Não deixa de ser curioso, também, que esta notícia surja alguns dias depois de dois elementos da embaixada da China em Portugal terem visitado os Açores para contactos com vista à eventual criação de um centro de investigação luso-chinês ligado às Ciências do Mar, para desenvolver uma cooperação com a China, no âmbito das Ciências do Mar, em áreas como a aquacultura, as biotecnologias e as energias renováveis. Parvos é que os chineses não são e está visto que a riqueza do mar açoriano está a despertar a cobiça do oriente. São mais que "conhecidos" os tesouros minerais e energéticos “escondidos” no fundo dos mares açorianos e com os americanos a abandonarem a região e com a sua previsível dependência energética dentro de 10-15 anos, os chineses avançam sobre as águas atlânticas sem concorrência aparente e a acenar com uns dinheiros que, para quem é pobre, sempre foi e sempre será, cai que nem ginjas!
Os recursos naturais extraídos em solos continentais dão sinais de exaustão. O mundo vira-se cada vez mais para o mar. E os chineses parece quererem nadar melhor que ninguém.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

PORTUGAL 100% RENOVÁVEL HÁ 6 DIAS! A QUE PREÇO?

O excecional mau tempo que tem assolado o país tem-se revelado benéfico para o setor elétrico nacional. Desde 27 de março que o país está a ser abastecido de eletricidade quase 100% produzida através de fontes renováveis (hídrica+eólica) como se pode observar no exemplo abaixo e referente ao dia 1 de abril:
 DIAGRAMA DE PRODUÇÃO - 1 DE ABRIL DE 2013 (fonte: REN)
Se repararmos na linha escura de maior espessura (relativa ao consumo) verifica-se que quase toda a energia necessária foi obtida pelas centrais que produzem em regime especial (fundamentalmente eólicas) - faixa verde - e pela produção ordinária nas centrais hídricas de albufeira (barragens) - faixa azul mais escura. Apenas se observa uma ligeira faixa avermelhada, na base do diagrama, que corresponde à produção térmica (carvão) que não ultrapassa os 3% do total da produção e apenas para regulação da rede.
Outro facto de extrema importância corresponde ao excesso de energia produzida - acima da linha escura do consumo - e que tem sido exportada através da interligação da rede portuguesa com a espanhola conforme se vê abaixo:
DIAGRAMA IMPORTAÇÃO/EXPORTAÇÃO - 1 DE ABRIL DE 2013 (fonte: REN)
Apesar desta ser uma realidade positiva resta saber quanto custará aos portugueses esta repentina e excecional "vaga" de produção renovável e como se refletirá nas futuras tarifas a fixar pela ERSE. No mercado elétrico português nem tudo o que parece é...