domingo, 24 de março de 2013

ESQUIAR NO DESERTO



Para um típico açoriano dos sete costados, esquiar deve ser, talvez, das últimas coisas que pensaria fazer nas suas férias. E por razões óbvias, penso eu. Mas para um habitante do Dubai essa talvez seja a atividade mais divertida para fazer numa tarde de verão. Apresento-vos o Sky Dubai, a maior estância de esqui do Médio Oriente.
http://www.guiaemdubai.com/wp-content/uploads/2010/07/SkiDubai-AftView_520.jpg
Neste complexo de aproximadamente 25 andares de altura e 22.500m2 de área, a temperatura ambiente é mantida a uns confortáveis -2 graus Celsius, perfeita para esquiar no verão! No exterior poderá estar calor suficiente para estrelar um ovo na capota de um dos carros luxuosos que brilham no parque de estacionamento, sob o ardente sol de um dos desertos mais quentes do mundo. Mas dentro do edifício há neve espantosa (100% artificial) para esquiar, fazer snowboard ou simplesmente brincar. O Sky Dubai tem cinco pistas de diferentes graus de dificuldade, extensão, altura ou inclinação, capazes de fazer as delícias do mais vasto leque de esquiadores. Mas se não gosta de esquiar pode sempre dar um passeio pelas lojas ou bebericar um chocolate quente no revigorante ar fresquinho, um consolo quando lá fora estão mais de 40 graus à sombra. Mesmo não sendo um Vail ou Chamonix, a verdade é que o Sky Dubai oferece-nos três mil metros quadrados de neve perfeita no meio do calor das arábias.
Se vivesse no Dubai, talvez fosse uma das mais de 3000 pessoas que diariamente frequentam a estância de esqui. Mas como sou um condutor açoriano e preciso de encher o meu depósito de gasolina preferia que o simpático povo do Dubai viajasse para uma estância de esqui com neve natural e parasse de queimar uma quantidade obscena de petróleo e gás natural para fazer neve artificial. A energia utilizada no Sky Dubai e no gigantesco centro comercial onde se encontra equivale a 3500 barris de petróleo por dia, aproximadamente 556.500 litros de crude. Sendo este mais ou menos o número de visitantes do espaço, dá cerca de um barril de petróleo (159 litros) por pessoa. Com um barril de petróleo conseguimos extrair em média 105 litros de gasolina. Portanto, um dia nas pistas do Sky Dubai daria para conduzir um carro médio durante quase 2000km!
Mas os esquiadores do Dubai pouco se importam com isso nem tão pouco com o preço da gasolina na minha bomba preferida. Afinal, é o seu petróleo. Então porque é que eu me hei-de importar com a quantidade de petróleo que os árabes queimam nos seus tempos de lazer? Porque a crescente sede de petróleo dos países produtores da OPEP tem influência no preço da gasolina que eu e você metemos nos nossos carros! 
Se um aumento do custo do barril de petróleo leva, certamente, a um consumo racional do condutor açoriano, isso não acontece com o típico condutor da Venezuela, do Dubai, da Arábia Saudita ou do Irão. Porque o custo dos combustíveis nestes países é altamente subsidiado, ou seja, muito barato (entre 15 a 45 cêntimos por litro de gasolina, aproximadamente). Estes subsídios desafiam a lógica do comportamento económico racional: quando os preços do petróleo aumentam nos mercados internacionais seria de esperar que o consumo nestes países baixasse. Mas isso não acontece. Preços mais elevados deveriam fazer inundar o mercado internacional de petróleo para fazer baixar o preço. Mas com o crescente aumento do consumo dos países que até há bem pouco tempo eram sobretudo exportadores aliada à crescente escassez das reservas convencionais, menos petróleo sobra para exportar o que faz aumentar ainda mais o preço do barril. Ou seja, vendem menos mas mais caro e assim conseguem subsidiar os seus combustíveis e aumentar o consumo interno! E com os preços mais caros quem paga mais? O simpático condutor açoriano!
O preço do petróleo de três dígitos (mais de 100 dólares) veio para ficar e cada vez será maior. E de nada servem as novas descobertas e as novas técnicas de extração e produção. Aliás, contribuem para agravar ainda mais o preço.

sábado, 23 de março de 2013

ÁGUA: fonte de ENERGIA, fonte de VIDA!


Assinalou-se ontem, 22 de março, o Dia Mundial da Água. Tivéssemos nós baptizado o nosso planeta a partir de uma imagem obtida do espaço e provavelmente teríamos optado por chamá-lo “Água” e não “Terra”. Embora o mundo em que habitamos esteja coberto em cerca de 70% por água (“Planeta Azul”) mais de 97% desta é salgada. Dos cerca de 3% de água doce existente, a maior parte está “presa” em neve e gelo ou armazenada no subsolo, água esta que estamos a esgotar a um ritmo muito superior à sua taxa de recuperação ou recarga.
Quimicamente, nada poderia ser mais simples: dois átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio e temos… água! A sua imortal fórmula química – H2O – é, provavelmente, a mais conhecida do mundo. Numa perspectiva humana, a simplicidade não é assim tão linear. Ao longo dos tempos, o homem consolidou a tendência para considerar a água como um direito adquirido à nascença. No entanto, a realidade vai destruindo a pouco e pouco esta fantasia. Efectivamente, a questão da água e a nossa relação futura com este recurso vital para todos os organismos vivos existentes na Terra, assenta, por um lado, numa natural pressão demográfica resultante do aumento exponencial da população mundial e, consequentemente, do aumento da procura do precioso líquido. Por outro lado, temos o aumento descontrolado e irracional do consumo de água potável em alguns países mais desenvolvidos. Convém recordar que, além de escassa, a água é um recurso natural irregularmente disponível no planeta. Por exemplo, nos Estados Unidos são gastos diariamente cerca de 7500 milhões de litros de água potável para irrigar campos de golfe enquanto no Norte do Quénia, mulheres percorrem, a cada dia que passa, vários quilómetros em busca de meia dúzia de litros de água lamacenta e contaminada para sobreviverem. Existem, ainda, outros factores mais complexos e imprevisíveis como as alterações climáticas que afectam globalmente a dinâmica meteorológica e hidrológica da Terra e, consequentemente, a quantidade e qualidade da água disponível para consumo. 
Racionalizar o consumo de água é promover a cidadania! Pense nisto!

HORA DO PLANETA: HOJE ÀS 20H30, ATREVA-SE A CONTRIBUIR PARA A SUSTENTABILIDADE DO SEU PLANETA!



Hora do Planeta: alguns números da edição de 2013
A Hora do Planeta assinala-se anualmente desde 2007 e é uma iniciativa da WWF – World Wide Foundation. É um dos momentos do ano mais esperado para milhões de pessoas que insistem em fazer melhor, todos os dias, pela sua sustentabilidade. Hoje, entre as 20h30 e as 21h30, cidadãos, instituições, empresas e comunidades de todo o mundo desligam as luzes numa ação simbólica para chamar a atenção de quem ainda pensa que a sustentabilidade é um chavão académico. O objetivo á alertar para a necessidade de se promover um consumo mais racional de energia, evitando desperdícios e utilizações desnecessárias. É a maior ação ambiental voluntária do mundo e é fácil perceber porquê. Para participar, basta a qualquer cidadão desligar as luzes e equipamentos que consomem eletricidade durante uma hora. Fácil! 
 
Em 2013, mais de 150 países e territórios vão participar no evento, um recorde em relação às edições anteriores. Palestina, Tunísia, Galápagos, Suriname, Guiana Francesa, Santa Helena e Ruanda estão entre aqueles que entraram na Hora do Planeta pela primeira vez.
Atualmente 70% da eletricidade produzida no mundo é obtida através de combustíveis fósseis. 
 As consequências ambientais e económicas são bem conhecidas e urge combater, à escala local com consequências globais, o desmesurado uso de energia elétrica em situações que poderiam muito bem ser evitadas.
É um gesto, um compromisso que cada um de nós pode e deve assumir consigo próprio, com os seus semelhantes e com o mundo que nos alberga. Lembre-se que as gerações futuras viverão no planeta que nós lhes legarmos, para o bem ou para o mal.
Adira à Hora do Planeta. Não custa nada.



quinta-feira, 21 de março de 2013

A CRISE GEOPOLÍTICA NO CHIPRE E A QUESTÃO ENERGÉTICA



Tenho ouvido variadíssimos comentários sobre a atual situação em Chipre. Todos parecem desviar-se, estranhamente, do núcleo geopolítico que emerge da crise financeira na ilha: energia, nomeadamente gás natural.
Chipre possui metade das potenciais reservas de gás natural da região Chipre-Israel-Líbano-Egito. Ao que indica um estudo da US Geological Survey, do total de 120 triliões de pés cúbicos de gás natural existente no mediterrâneo oriental, cerca de metade encontram-se nos domínios cipriotas. Há ainda o gás e petróleo gregos (algo de que quase ninguém fala). De acordo com o Deutsche Bank, as reservas de gás natural existentes no mar grego cobrem 107% do PIB daquele país, num valor de 600 mil milhões de euros, mais do que a sua atual dívida. Ainda segundo a Reuters, um recente estudo geológico aponta que estas reservas estão localizadas a sul de Creta e correspondem a 6 anos do total de consumo de gás natural europeu. E estes números só são correspondentes ao gás natural, pois ainda existem as potenciais reservas de petróleo.
Se as reservas de gás se confirmarem, a Grécia será o 15º maior produtor mundial deste combustível.
Portanto, se somarmos o gás natural grego ao cipriota e israelita, constata-se que a região do Mediterrâneo Oriental possui um potencial de abastecimento do mercado de europeu para um consumo de mais de 10 anos. Esta nova plataforma energética europeia revela-se fundamental para atenuar a dependência extrema do gás fornecido pela Rússia, o maior abastecedor europeu.
Se a tudo isto juntarmos a superior posição geoestratégica da ilha, num ponto central entre o Líbano, Israel, Turquia e Grécia, nota-se que potencial do Chipre tornar num ponto estratégico para a produção de gás natural, e para a sua expedição via gasoduto ou então liquefeito por via marítima, é mais do que evidente.
Por tudo isto não se estranha o interesse da Gazprom russa para resgatar Chipre em troca da exclusividade dos direitos de exploração do gás e petróleo, face ao autêntico disparate que a Europa, comandada pela Alemanha, acabou de sugerir com o roubo de uma percentagem dos depósitos bancários existentes nos bancos cipriotas. Se a Gazprom concretizar esta proposta, e se conseguir, ainda, adquirir a maior empresa de gás grega (DEPA), a Alemanha irá colocar nas mãos da Rússia o domínio logístico e económico ao mediterrâneo. Devido ao conflito político entre a Grécia e a Turquia verifica-se que a questão energética ainda se torna mais complexa e delicada. Por isso, de um ponto de vista europeu, a abordagem alemã face à questão financeira cipriota é claramente incompreensível e ilógica.
Falta ver a posição dos Estados Unidos face à evolução da dinâmica geopolítica da energia nesta cada vez mais emergente zona energética europeia. Recorde-se que a americana Noble Energy detem a licença de exploração do campo de gás off-shore cipriota Aphrodite (bloco 12 na foto abaixo) onde se estimam existir 7 triliões de pés cúbicos daquele combustível.