domingo, 17 de março de 2013

QUEIMAR O SOL "ENTERRADO"

A energia solar é muitas vezes criticada pela sua baixa eficiência – tipicamente apenas cerca de 10% da luz solar que atinge um comum painel solar comercial será convertida em eletricidade. Críticas semelhantes são atribuídas aos biocombustíveis, que têm uma taxa de conversão de energia solar-combustível  inferior a 2%. Mas como comparar essas eficiências com outras fontes de energia como o petróleo?
Primeiro consideremos o seguinte. Na realidade e apesar de tudo o que se possa dizer, apenas existem três fontes primárias de energia: nuclear, geotérmica e solar (pode existir uma pequena exceção que é a energia das marés, alimentada pelas forças gravitacionais tanto do sol como da lua). A energia solar é a fonte original da biomassa, da energia eólica, dos combustíveis fósseis, e até mesmo da energia hidroelétrica. O sol cria gradientes de temperatura na superfície da Terra, que geram o vento. A fotossíntese da biomassa vegetal é produzida por fotões solares. É essa biomassa que ficou enterrada ao longo de milhões de anos e que contribuiu para a formação do petróleo que hoje se extrai do subsolo. As centrais hidroelétricas aproveitam a energia potencial da água. Mas a água tem de surgir de alguma forma. É o sol que cria a água no estado líquido através da evaporação, que é posteriormente libertada sob a forma de chuva.
Essas “fontes” de energia - eólica, biomassa e hídrica - acabam por não ser verdadeiramente fontes primárias de energia. São apenas maneiras diferentes de converter a energia solar noutra forma.
Ao comparar estes tipos de energias, é importante pensar sobre a eficiência com que cada tipo converte a energia solar noutra forma útil de energia. Nos casos da eólica, hídrica e solar, a forma utilizável de conversão é geralmente eletricidade; com biomassa e petróleo, obtemos vários combustíveis líquidos que podem ser usados para mover seu carro ou gerar eletricidade.
Sabemos que a eficiência da conversão do painel solar é de, tipicamente, cerca de 10%, e a eficiência de conversão de sol em biomassa é de aproximadamente 2%. Como se poderá constatar, estes valores acabam por ser muito bons!
Vamos olhar para os combustíveis fósseis, petróleo em particular. Apesar da existência de uma teoria que sustenta a formação inorgânica do petróleo, a ciência continua a explicar a formação deste hidrocarboneto de origem fóssil como o resultado da evolução geológica do planeta. De uma forma simples, o petróleo resulta da acumulação de matéria orgânica vegetal e animal ao longo de milhões de anos que foi sendo coberta por formações rochosas sedimentares cujo peso conjugado com o calor da terra, formou  a matéria negra e viscosa a que chamamos crude ou simplesmente petróleo. Embora existam registos da utilização de uma matéria escura e pastosa na construção de estradas e impermeabilizações ou até mesmo para queima que remontam a 4000 a.c., a era moderna da exploração de petróleo inicia-se em 1859, na Pensilvânia (EUA). Certo é que o “ouro negro” como é hoje designado, se manteve “escondido” durante dezenas de milhões de anos no interior da terra, mais ou menos próximo da superfície. É pelo facto de demorar todo este tempo a formar-se que o petróleo “encaixa” nas designadas fontes energéticas não renováveis.
 Abundante e energeticamente denso, o petróleo permitiu ao mundo desenvolver-se e produzir coisas incríveis. E todos nós consideramos que os combustíveis fósseis, incluindo o petróleo, como fonte de energia, são eficientes. Mas, estes são, na verdade, utilizados como uma forma secundária de energia.
Vamos observar as taxas de eficiência de cada etapa da “produção” de petróleo:
- Primeiro, é necessário luz solar para fazer crescer as plantas (matéria orgânica) através da fotossíntese, num processo de baixa eficiência (1,7%)*.
- Apenas uma escassa percentagem destas plantas (2%)*, ficou “aprisionada” no subsolo da Terra e contribuiu para a formação do petróleo.
- Cerca de 74%* desta biomassa “aprisionada” se transformou em petróleo.
- Apenas cerca de 2,8%* do petróleo formado ficou em jazidas acessíveis e exploráveis.
- Aproximadamente 25%* desse petróleo é recuperável pelo ser humano.
- Cerca de 90% do petróleo extraído é refinado em produtos petrolíferos – incluindo combustíveis - uma vez que cerca de 10% é absorvido no processo de extração e da própria refinação.
- Finalmente, os motores de combustão interna possuem cerca de 20% de eficiência.
Fazendo algumas contas com base nestes números conclui-se que o petróleo enquanto fonte de energia e desde a conversão de energia solar noutra forma de energia (mecânica, eletricidade ou calor) possui uma eficiência de apenas 0,000003%.
Dito de outra forma, se quisermos 1 Watt de energia a partir de painéis solares fotovoltaicos dos que atualmente de vendem, precisamos de cerca de 10 Watt de luz solar. Se quisermos 1 Watt de energia a partir de biomassa, vamos necessitar de cerca de 50 Watt de luz solar. E se pretendermos 1 Watt de energia a partir do petróleo, necessitamos de mais de três milhões de Watt de luz solar.
Felizmente, hoje em dia já não precisamos apenas no processo natural "terrestre" de formação de combustíveis. Temos, ainda, alguma abundância de petróleo armazenado na crosta, mas cada vez mais caro de extrair. Quando este petróleo acabar  temos maneiras  de produzir  combustíveis sintéticos usando biomassa bem mais eficientes do que a forma como o faz a Terra naturalmente. O  petróleo é abundante, por agora, mas como se vê, a energia solar e da biomassa são muito mais eficientes.



(*) Referência:  “Burning Buried Sunshine: Human Consumption of Ancient Solar Energy” - Jeffery Duke.

Mesmo considerando outros valores típicos de eficiência por consulta de outras fontes, a ordem de grandeza concluída nesta abordagem não se altera significativamente.





sábado, 16 de março de 2013

FRANÇA ATACA A POLUIÇÃO LUMINOSA: O SORRISO DAS ESTRELAS



A starry night sky
 Foto: National Geographic

Desengane-se quem pensar que Paris é considerada a “Cidade das Luzes” só por causa da quantidade de lâmpadas ou pelo pioneirismo em eletricidade dos franceses. O “luminoso” apelido parisiense vem do Iluminismo (Era da Luz ou da Razão) pois, nestes tempos, a cidade foi o centro desta época “pós-trevas” da idade média, com os intelectuais e pensadores de então a “iluminar” a mente humana com filosofia e a tentar explicar o universo com a razão e a ciência. Agora, em pleno século XXI, as luzes parisienses são outras mas continuam a encantar o mundo. É como se a eletricidade se tivesse tornado arte. À noite, o espetáculo de luzes transforma a capital francesa numa cidade mágica! Os monumentos e símbolos arquitetónicos iluminados por poderosos projetores são um espetáculo imperdível para quem se desloca à cidade da Torre Eiffel, do Molin Rouge, dos Campos Elísios, e da gótica catedral de Notre-Dame. Os inúmeros barcos cintilantes que cruzam o rio Sena “banham” com ainda mais luz o já de si brilhante mosaico urbano parisiense.
Todavia, e apesar da iluminação noturna constituir um importante cartaz turístico da sua capital, os franceses estão a tomar uma posição contra aquilo que chamam de poluição luminosa excessiva e insustentável. A partir deste verão, a maioria dos edifícios não residenciais no país terá que desligar suas luzes à noite, a fim de reduzir o impacto da iluminação artificial sobre o ambiente noturno. A medida inclui alterações significativas, também, ao nível da iluminação de vias rodoviárias. De acordo com a ministra francesa do Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Energia, a Delphine Batho, esta mudança vai reduzir o consumo anual total de energia num montante equivalente ao consumo de 750.000 famílias. Mas, a principal motivação intrínseca ao novo decreto legislativo é a saúde pública. De acordo com a declaração de Batho, a luz artificial pode causar "perturbações significativas nos ecossistemas”. Um artigo da National Geographic diz que a poluição luminosa é em grande parte o resultado de maus projetos de iluminação que "modificam a escuridão da noite e alteram radicalmente os níveis de luz e ritmos a que muitas formas de vida, incluindo nós mesmos, se adaptaram”. Sempre que se emite luz artificial para o mundo natural, algum aspeto da vida animal e vegetal, incluindo a vida humana, se altera. 
 


Foto: NASA
 
A nova lei francesa vai combater a poluição luminosa, obrigando a iluminação dos edifícios não-residenciais a desligarem-se à noite. Mesmo as montras das lojas vão entrar na escuridão à uma hora da manhã. Exceções incluem apenas o Natal e outras ocasiões especiais, bem como atrações turísticas significativas como, por exemplo, a Torre Eiffel que vai continuar a deslumbrar os turistas com o seu espetáculo cintilante de hora em hora.
Paralelamente a uma significativa redução de consumos, os franceses demonstram, com esta medida, uma importante consciência ambiental. Note-se que a França oferece uma das mais baixas tarifas de energia elétrica da Europa graças aos 78% de eletricidade produzida pelos seus 58 reatores nucleares.
Em resumo: menos poluição luminosa, mais economia energética, melhores condições de vida para todas as espécies. E as estrelas sorriem...

segunda-feira, 11 de março de 2013

FUKUSHIMA: DOIS ANOS DEPOIS O RETORNO AO NUCLEAR?


Casal faz orações em memorial para as vítimas do terremoto seguido de tsunami que devastou o Japão em 2011 e matou cerca de 19 mil pessoas, em área devastada pela tragédia em Natori,

Dois anos depois de Fukushima ter presenciado a pior crise nuclear desde Chernobyl, o Japão passou da “negação nuclear” ao planeamento da reativação das suas centrais, apesar dos protestos dos movimentos antinucleares. Com apenas dois dos seus mais de 50 reatores nucleares operacionais, o novo governo japonês, liderado pelo conservador Shinzo Abe, ainda não revelou com clareza qual será sua política energética para o futuro, mas ofereceu pistas sobre sua inclinação para este tipo de energia. Embora seu antecessor, Yoshihiko Noda, tenha prometido um futuro sem centrais nucleares a partir de 2030, no calor do desastre de Fukushima, a vitória por uma arrasadora maioria de Abe nas eleições de dezembro de 2012 desenha um caminho de retorno à energia atómica.
O que parece quase seguro é que os reatores, parados para inspeções de segurança exigidas pelo governo após o acidente, não poderão retomar sua atividade antes de passados pelo menos três anos, prazo estimado para a conclusão destas revisões. Além disso, no caso de não reativar nenhum antes de setembro, o Japão voltará presumivelmente ao blackout nuclear completo, como ocorreu entre maio e junho de 2012 pela primeira vez em 42 anos, já que para então está programada a paragem dos reatores da central de Oi, os dois únicos ativos no país.
Por outro lado, está a necessidade de controlar o aumento do custo das importações de hidrocarbonetos que alimentam as centrais térmicas após o encerramento das nucleares, que antes do acidente forneciam aproximadamente 30% do abastecimento total do país. Neste sentido, apenas em 2012 as importações de hidrocarbonetos aumentaram 10,4% o que arrastou o Japão para seu maior défice comercial de sempre. Entretanto as tarifas elétricas nos lares japoneses aumentaram mais ou menos na mesma proporção.
Contra esta reviravolta parece estar o povo japonês. Cresce no país o medo do retorno ao programa nuclear.
A dúvida está em saber quem ganhará esta aparente batalha. Se o governo japonês e as fortes pressões económicas, ou a vontade do povo.
O Japão, apesar de ser a terceira maior economia do mundo, é um país pobre em recursos naturais pelo menos face às suas necessidades energéticas. Sustentar esta posição de topo parece difícil num cenário sem energia nuclear, uma das mais competitivas formas de geral eletricidade.
Resta saber quem vencerá esta luta mas estou certo de que o retorno ao nuclear é um caminho incontornável. E há que não esquecer que a tecnologia neste domínio não parou existindo, já, novas gerações de reatores em fase de licenciamento principalmente na China.

ILUMINAÇÃO PÚBLICA: O NOVO QUADRO TARIFÁRIO E A FATURA DOS MUNICÍPIOS (2ª parte)


Na primeira parte desta reflexão procurei traçar o quadro de transição das tarifas de iluminação pública (IP) que já originou, pelo menos da parte dos municípios, a manifestação de alguma preocupação face ao aumento dos valores faturados nos primeiros meses do ano e que nalguns casos ultrapassa os 30%. Recordando a essência do que escrevi há quinze dias, foi extinta a tarifa específica de IP nos Açores, Madeira e Continente e passou a aplicar-se o tarifário geral de baixa tensão acrescido da taxa de potência contratada, que não existia. Este novo quadro implicou um aumento do tarifário mesmo que os clientes tenham optado pela tarifa mais vantajosa, neste caso, a tri-horária. Não são raros os casos em que a despesa com IP representa mais de 50% do custo mensal de energia dos municípios.
A Iluminação Pública é um segmento de desenvolvimento essencial à qualidade de vida nos centros populacionais, atuando como instrumento de cidadania e permitindo aos habitantes desfrutar, plenamente, do espaço público no período noturno. No entanto e face ao atual cenário, urge reduzir consumos. A sustentabilidade de qualquer solução passa pela remodelação gradual e sustentada das redes de IP, ao nível da substituição de luminárias por equipamentos mais eficientes de tecnologia LED. As atuais soluções em comercialização oferecem, além do mesmo nível de intensidade luminosa com menos potência, uma vasta gama de ferramentas de gestão técnica que permitem maximizar a redução do consumo de energia mantendo os níveis de conforto ambiente e segurança em IP.
Em tempo de restrições orçamentais, com uma economia estagnada, um desemprego histórico e muitas pessoas a “cair” na pobreza, pode parecer no mínimo inusitado defender a canalização de investimentos para redes de IP. No entanto, avaliando esta opção de outro ângulo, a redução significativa da despesa dos municípios e do próprio Governo dos Açores neste setor, que ultrapassa os 3M€ anuais, pode libertar verbas que serviriam outros fins com a vantagem de manter a qualidade da IP nas vias e espaços públicos da região. Existia cabimento no quadro comunitário de apoio que agora termina e existirá, certamente, no próximo. Foi o que fizeram recentemente alguns municípios do país, por exemplo, Reguengos de Monsaraz (substituição de 260 luminárias, redução de 64% no consumo), Valpaços (substituição de 66 luminárias, redução de 46%), ou Ílhavo (substituição de 100 luminárias, redução de 84% no consumo), todos estes projetos com retorno de investimento previsto a rondar os cinco anos para luminárias com vida útil de 25 anos.
Deve partir-se do pressuposto de que a EDA tem como principal área de negócio a produção, aquisição e venda de energia elétrica. Dizendo de outra forma, o objetivo da EDA é vender eletricidade. E quanto mais vender melhor. A elétrica regional também não tem interesse na redução de consumos particularmente durante a noite por razões técnicas de penetração de energias renováveis como a eólica e a geotérmica. A solução parece-me residir num trabalho articulado entre todas as entidades com intervenção na matéria: EDA, governo regional e municípios, mas com ênfase nestas últimas. Os projetos de instalações de IP devem centrar-se nas autarquias e direção regional competente em matéria de energia, no que toca ao dimensionamento, escolha das tecnologias e características técnicas, com a EDA e a entidade regional com competência em matéria de transportes terrestres intervindo apenas no licenciamento (ligação à rede elétrica e verificação do cumprimentos dos normativos legais em matéria de segurança rodoviária). A manutenção deve ficar a cargo dos municípios ou governo, conforme o caso, e nunca ser entregue à EDA como acontece atualmente.
Parece-me óbvio que está nas mãos dos próprios municípios alterar os atual estado das coisas, exercendo pressão contra os interesses instalados e investindo em algo realmente importante a bem da sua saúde financeira e da qualidade de vida dos seus munícipes.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

ILUMINAÇÃO PÚBLICA: O NOVO QUADRO TARIFÁRIO E A FATURA DOS MUNICÍPIOS (1ª parte)



Notícias recentes evidenciam a preocupação de alguns municípios com as faturas da energia elétrica destinada à iluminação de vias municipais, genericamente designada por iluminação pública (IP). Esta “aflição” deve estender-se a muitos dos municípios da região e continente que, independentemente da dimensão das suas redes, viram o montante das faturas aumentar significativamente em janeiro deste ano.
Até dezembro de 2012 existiu uma tarifa especial para IP que vigorou no Continente e Regiões Autónomas. Enquanto no Continente e Madeira este valor foi de 0,11€ por kWh, nos Açores o custo unitário fixo foi de 0,0888€ por kWh traduzindo uma diferenciação de cerca de 20%. De acordo com o Regulamento do Tarifário em vigor deste 2011 o termo da vigência destas tarifas estava previsto há muito tempo conforme os pressupostos do regime de convergência do tarifário que, como se sabe, garante aos consumidores insulares as mesmas tarifas de referência praticadas no Continente em mercado regulado. Extintas as tarifas especiais, passou a aplicar-se o tarifário geral de fornecimento em baixa tensão deixando de existir diferenciação relativamente ao destino do consumo especificamente para a IP.
Em cumprimento do Regulamento de RelaçõesComerciais do Setor Elétrico (RRCSE), mais concretamente do ponto um do artigo 318º, a EDA terá (?) comunicado aos consumidores de IP (governo e municípios) a extinção das tarifas específicas de IP e recomendou (?) a adoção, em cada caso, da tarifa mais indicada no quadro do novo tarifário para 2013. O ponto dois do mesmo artigo diz: “Se os clientes que beneficiam da tarifa de iluminação pública não procederem à escolha da opção tarifária que pretendem, o comercializador de último recurso deve faturar de acordo com a opção tarifária que for considerada mais favorável ao cliente”. Analisando as opções disponíveis verifica-se que esta indicação por parte da EDA deverá ter sido a opção tri-horária. No entanto e apesar de ser a melhor escolha, representou sempre um aumento global da tarifa paga pelos municípios e governo regional a partir de janeiro de 2013. A tarifa tri-horária compreende três períodos ao longo do dia. Mesmo considerando que o consumo de IP encaixa maioritariamente no vazio (22h00-08h00) onde a tarifa é substancialmente mais reduzida, ainda assim e especialmente nos meses de inverno em que anoitece mais cedo e mesmo levando em conta o atraso na ligação e avanço no desligamento das luminárias, sobram ainda algumas horas de consumo fora do vazio, período em que o custo da energia é quase o dobro do valor da extinta tarifa. Há que acrescentar o custo da potência contratada por ligação que passou a ser faturado enquanto no anterior regime não existia.
Ponderadas estas alterações, julgo não poder existir surpresa no aumento anunciado das faturas dos municípios. As questões que se podem colocar são noutros termos: ter-se-ão as autarquias apercebido do impacto da extinção das tarifas especiais para IP e ter-lhe-ão dado a devida importância? Terão solicitado a alteração para o tarifário mais favorável ou estarão, nesta altura, a pagar o tarifário simples, cerca de 40% mais elevado? Terão sido aconselhadas na opção pelo novo tarifário? Caso não tenham comunicado a opção, a alteração para tarifa tri-horária terá sido automática, de acordo com as disposições do RRCSE?
Independentemente do cenário que poderá não ser generalizado – cada caso é particular, até porque nem todas as autarquias aderiram à redução de consumos na mesma proporção – urge encontrar um conjunto de medidas mitigadoras deste aumento da faturação municipal de IP. Em tempo de contenção orçamental é imperioso um plano de intervenção que atenue os efeitos deste novo quadro tarifário e que liberte os municípios de mais este estrangulamento financeiro. E pode não ser assim tão difícil. Mas deste assunto tratarei na segunda parte desta publicação.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

POSEI ENERGIA: UM NOVO FÔLEGO PARA OS AÇORES?

De acordo com uma nota divulgada pelo gabinete da Eurodeputada Maria do Céu Patrão Neves, a sua Emenda sobre a criação de um POSEI para a energia foi hoje aprovada:


Decorreu esta manhã a votação do Relatório Manner sobre "Desafios e oportunidades actuais na área das energias renováveis no mercado europeu da energia".
Segundo a Eurodeputada Patrão Neves "este relatório debruça-se sobre a Comunicação da Comissão Europeia intitulada Energias Renováveis: um agente decisivo no mercado europeu de energia e prevê a diversificação do aprovisionamento energético com vista à melhoria da competitividade europeia mediante a criação de novas actividades económicas, postos de trabalho, crescimento económico e oportunidades de exportação, reduzindo simultaneamente as emissões de gases com efeito de estufa. De facto, relativamente às energias renováveis, o objectivo é muito ambicioso e é um dos mais relevantes na Estratégia Europa 2020 para um crescimento sustentável e nós nos Açores, podemos e devemos tirar proveito destas orientações, dadas as condições excepcionais que dispomos neste sector, como sejam a geotermia, a energia eólica, hídrica, entre outras."Reconhecendo a importância deste relatório para os Açores, especialmente numa lógica de redução de custos, de protecção ambiental e de um desenvolvimento sustentável, Patrão Neves apresentou contributos para o mesmo no sentido de potencializar a participação das regiões ultraperiféricas, como os Açores, neste domínio. Neste contexto, a sua proposta de um Posei energia foi aprovada esta manhã em Bruxelas.
Segundo a Eurodeputada "tendo em conta a importância que as estratégias sustentáveis desenvolvidas a nível local desempenham em termos de desenvolvimento regional e social, julgo que se tornaria necessário, dados os condicionalismos geográficos e as nossas especificidades, a criação de um programa específico na área da energia, tipo POSEI, de modo a fazer face a todas as situações que atrás referi e explorar eficazmente o potencial único dos Açores."E assim aconteceu.

A finalizar a sua intervenção, Patrão Neves afirmou "esta é mais uma pequena vitória para os Açores, que a curto ou a médio prazo, caso tudo se mantenha como está, poderá vir a disponibilizar para os Açores algum financiamento específico para que a região consiga alcançar as metas previstas na Estratégia 2020, ao nível do recurso às energias renováveis".

Trata-se de uma excelente notícia para os açorianos. Espera-se que este financiamento possa servir para a consolidação da Região como pólo de investigação e desenvolvimento na área da energia, uma capacidade que defendo há muito tempo e que com esta conquista recebe um novo impulso.
Recordo que os Açores, de há uns anos a esta parte, ultrapassa a média europeia em matéria de produção de eletricidade por via renovável e a meta dos 20% definidos na Estratégia Europa 2020.
No período 2007-2010 assistimos a uma produção renovável média de 27,1% na Região com um pico de 30% em 2011 e um ligeiro decréscimo (28%) em 2012. Embora existindo, ainda, alguma margem de manobra, estes valores tenderão a estabilizar em torno destes números. Os condicionalismos nas nossas micro-redes e a tendência para a redução dos consumos face aos constrangimentos económicos que vivemos condicionam económica e tecnicamente o incremento da produção renovável em terras açorianas.
Em 2010 a produção renovável nos Açores foi de 28,1% sendo a média dos 27 países da UE de 19,9%. Em 2012 não será difícil adivinhar que a meta dos 20% foi ultrapassada.

Electricity generated from renewable energy sources, EU-27, 2000-2010

domingo, 17 de fevereiro de 2013

EDIFÍCIOS SUSTENTÁVEIS: NOVO VIDRO CAPAZ DE GERAR ENERGIA


Oxford PV Products
Cada vez mais se perspetiva o aumento da produção descentralizada de energia elétrica para consumo próprio dos edifícios ou para entrega às redes de distribuição públicas ou privadas. Estas terão, mais cedo ou mais tarde, de se adaptar a esta realidade emergente evoluindo no sentido de adquirirem capacidade para gerir a penetração deste contributo na maioria dos casos intermitente.
A par deste caminho que me parece incontornável, a evolução tecnológica segue o seu rumo natural surgindo a cada dia novas técnicas e produtos que consolidam a ideia de cidades ou regiões com enorme capacidade de aproveitarem os recursos naturais para produzirem a sua própria energia.
É um tema complexo do ponto de vista técnico e económico mas os sinais que surgem um pouco por todo o mundo parecem garantir este modelo futuro de integração de sistemas mini e microprodutores nas grandes redes de energia. 
Foi recentemente noticiado um projeto de uma empresa inglesa que consiste na criação de um vidro transparente e colorido capaz de gera energia elétrica a partir da luz solar com custos reduzidos. Estima-se que as novas células solares representariam um aumento de apenas dez por cento no valor final dos vidros para a construção civil, segundo a responsável pelo projeto, a Oxford PhotoVoltaics.
Atualmente, o principal recurso utilizado para gerar energia elétrica a partir da luz solar nos prédios consiste em painéis fotovoltaicos, estruturas de grande dimensão instaladas no cimo dos prédios, cuja instalação ainda representa um investimento elevado.
Para já o rácio de conversão energética é de apenas 10,7% mas a companhia prevê o crescimento da eficiência do processo para valores idênticos ou superiores aos das células utilizadas nos painéis convencionais.
Esta semana, a Oxford PhotoVoltaics anunciou que recebeu um contributo de mais de 2,3 milhões de euros da empresa MTI Partners que deve ajudar o negócio a atingir a via comercial, segundo o site Design Build Solar.
O objetivo, esse é simples: balancear a relação consumo/produção energética dos edifícios tornando-os, portanto, mais sustentáveis. Fazer com que as infraestruturas consumam menos energia e produzam mais, para auto-consumo e/ou venda do excedente. 

fonte: Oxford PhotoVoltaics

sábado, 9 de fevereiro de 2013

SuperDARN: O CARNAVAL CIENTÍFICO CONTINUA!



Nos últimos quatro ou cinco anos foi “vendida” aos açorianos a ideia de que o arquipélago se encontra na vanguarda da ciência espacial. Chegámos mesmo a ler e a ouvir referências a um “cluster espacial" nos Açores. Lançou-se a construção de um parque tecnológico ao qual se deu o nome, até giro e high-tech, de Nonagon, que albergará (há quem acredite) empresas como a Microsoft e outras do género. No Pico existe uma estação de medição da poluição atmosférica em altitude a que dão o simpático nome de PICO-NARE mas que não passa disso mesmo, um equipamento de monitorização e registo de dados. Assim como existe na Graciosa uma estação internacional de deteção de ensaios nucleares com uns quantos sensores que debitam informação para uma qualquer base de dados informatizada e instalada sabe-se lá onde. Em Santa Maria existe uma estação de rastreio espacial, com mais uma antena e afins, que não trouxe nada de novo à região apesar do seu potencial.
Pelo meio desta verborreia de falácias e falsos vanguardismos veio a notícia do envolvimento da região no projeto SuperDARN cujo último episódio ocorreu na passada semana com a assinatura de contratos de arrendamento de terrenos para a instalação de infraestruturas. As palavras do novo secretário regional que tutela estas matérias de tecnologia, anunciam um discurso mais realista e cauteloso não escapando, no entanto, à tentação de fazer com que as coisas pareçam mais do que afinal são. Em primeiro lugar convém perceber minimamente o que é isto do SuperDARN. Trata-se de um projeto internacional de nome Super Dual Auroral Radar Network que tem como objetivo estudar a atmosfera superior da terra e a ionosfera fornecendo aos cientistas dados que permitam, além de melhor compreender os fenómenos eletromagnéticos nestas camadas, analisar a propagação e reflexão de ondas de alta frequência. Esta tecnologia é por muitos relacionada com outro projeto americano, o HAARP (High Frequency Active Auroral Research Project) dadas as suas semelhanças concetuais. O HAARP, tido como uma investigação para melhorar as comunicações, é também apontado como uma tentativa de criar uma “arma climatérica” com a capacidade de despoletar eventos extremos como secas, cheias, tempestades, furacões, terramotos ou até mesmo fadiga crónica nas populações. Ainda se desconhece se a argumentação dos teóricos da conspiração do HAARP tem fundamento mas os sinais e as análises já publicadas são no mínimo preocupantes..
É importante que se perceba de uma vez por todas que quem decide trazer estes projetos para a região não somos nós. Para quem realmente escolhe e decide, somos vistos como nove pedaços de terra que emergem das águas atlânticas e, ora vejam que sorte, isso até acontece em coordenadas geográficas oportunas! Isto quer dizer que estas antenas e estações vêm cá parar assim como iriam “aterrar” em ilhas onde não houvesse um único ser vivo, se fosse o caso de estarem mais bem posicionadas. Afirmar que estamos na vanguarda da tecnologia ou que se desenha um cluster espacial regional são declarações políticas despropositadas. Continuar a afirmar que a presença destes equipamentos vai dinamizar a economia regional, criar emprego e aumentar o fluxo de visitantes à região é insistir numa ilusão. E a continuar-se por essa via, ainda haverá quem queira converter o Parque Urbano de Ponta Delgada num campo de lançamento de vai-e-vens espaciais ou as Portas do Mar num centro de lançamento de satélites com a marca Açores.
O Carnaval continua, apenas mudaram as máscaras dos “matadores” da ciência nos Açores. O setor energético, esse, fica sempre no fundo da memória de quem sonha com uns Açores vanguardistas. Lembram-se da central de energia das ondas do Pico, uma das únicas do género no mundo? 



Sabem o que fizeram com este projeto científico? Já agora, sabia que decorre uma espécie de peditório intitulado “HELP THE PICO POWER PLANT”?

Isto, meus senhores, é o que se faz com a ciência por estas bandas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CARRO ELÉTRICO: BATERIAS DE LÍTIO-AR EM 2020


Karl Marx disse um dia que a história se repete sempre. Primeiro como uma tragédia e depois como uma farsa. O mundo tende a aceitar os carros eléctricos, puros ou híbridos, como os veículos do futuro. Mas a verdade é que este futuro podia muito bem ser o presente e andarmos todos a conduzir veículos menos poluentes se não fosse a inigualável capacidade humana de cedência a lobbies de interesses económicos em detrimento da sustentabilidade. Pois é, corriam os anos de mil oitocentos e tais, em pleno século XIX, as damas e os cavalheiros de então passeavam-se em luxuosas carroças mas também em… carros eléctricos. Sim, a tecnologia eléctrica em que hoje se projecta o futuro da nossa mobilidade automóvel já existia numa época em que as donzelas vestiam espartilhos e volumosos vestidos, enquanto os homens trajavam fraques e cartolas.
Apesar da simplicidade das tecnologias dessa época, nasceram máquinas que ainda hoje nos fascinam pelo seu engenho e performance. A barreira dos 100km/h, por exemplo, foi atingida em 1899 pelo belga Camille Jenatzy no seu “La Jamais Contente”, um curioso veículo em forma de torpedo. 

"La Jamais Contente"

Em 1900, Ferdinand Porche apresentava um veículo eléctrico já com os motores integrados nas rodas e Waldmar Junger – pai da bateria de Níquel-Cádmio – conseguiu para o seu modelo uma autonomia de 150km. Quando o mítico Ford T – o primeiro carro a ser produzido em massa – saiu da linha de montagem os carros eléctricos eram mais populares do que os veículos com motores de combustão interna, barulhentos, poluentes e que arrancavam com uma manivela tal como se vê nos filmes a preto e branco dessa altura.

Ficheiro:TModel launch Geelong.jpg
Ford T

O ano de 1913 pode muito bem ter sido o início da tragédia da viatura eléctrica. Com a descoberta do motor de arranque eléctrico pela Cadillac, deixou de ser necessário ter um físico de Rambo para pôr a trabalhar um carro. Com esta invenção aliada à queda dos preços do Ford T produzidos em massa, o motor de combustão interna ganha terreno e atira o eléctrico para fora de combate.
Depois, a dar razão ao que apregoava Marx, deu-se um episódio que representa uma autêntica farsa. Na sequência do alarme que soou devido ao problema da poluição, antes ainda da polémica do aquecimento global, alguns fabricantes como a Toyota, a própria Ford ou a General Motors (GM) fizeram renascer o veículo eléctrico surgindo, entre 1996 e 2003, modelos como o RAV4, a primeira geração do Prius ou o mítico EV1 da americana GM. 

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EV1

Inicialmente comercializados em sistema de locação financeira de curto prazo para análise em uso real pelos seus proprietários, rapidamente estes modelos se transformaram num êxito entre aqueles que se davam ao luxo de os poder adquirir. As marcas começaram a ter que lidar com um problema: o sucesso dos seus modelos eléctricos. As inovações raramente chegam à comercialização quando a ideia coloca em causa  o lucro final do inovador. Ou seja, a última coisa que os fabricantes queriam era pôr em causa o altamente lucrativo negócio dos bebedouros de combustível! Não queriam fabricar carros de baixa manutenção quando tinham a possibilidade de produzir viaturas alimentadas a gasolina e diesel que teriam que voltar ao stand para mudar o óleo, fazer a revisão mecânica ou verificações de rotina onde os seus proprietários deixam o seu dinheirinho engordando o lucro dos insaciáveis gigantes da industria automóvel.
A farsa continuou com a entrada em cena de outros figurantes encabeçados pelas empresas petrolíferas. Voltaram a aproveitar o problema da autonomia para descredibilizar o carro eléctrico, compraram as patentes das baterias para travar o seu desenvolvimento tecnológico e impedir que a sua inovação chegasse ao mercado. Ironia das ironias e depois de uma batalha jurídica travada entre os gigantes da industria automóvel e petrolífera, de um lado, e os proprietários das viaturas eléctricas e diversos grupos ambientalistas, do outro lado, os primeiros conseguiram, inclusivamente, fazer vencer a teoria de que os seus próprios carros fariam aumentar a poluição, já que, sendo caros, fariam com que os automobilistas andassem mais tempo com as suas velharias (!). Portanto, haveria que simplesmente exterminá-los como se de um vírus mortífero e sanguinário se tratasse. Foi o que aconteceu, apesar do inglório esforço de grupos de cidadãos e proprietários desses carros que os viram “prensados” como lixo, literalmente falando porque isto aconteceu mesmo! Os pouco modelos que sobraram foram doados a museus e universidades.
Agora, com a necessidade de reduzir as emissões carbónicas e criar um novo cluster de penetração de fontes renováveis, técnicos e engenheiros (talvez os mesmos de há 6 anos) tentam ressuscitar o carro eléctrico procurando soluções para a massificação da tecnologia eléctrica. Não será para já, é certo. Mas a verdade é que, não tivesse a história estes negros episódios, a realidade das nossas estradas podia, hoje, ser bem mais silenciosa, limpa e económica. Bastava que a tecnologia que nasceu no século XIX tivesse seguido um percurso natural de investigação e desenvolvimento como tantas outras coisas – ou pelo menos as coisas em que as grandes corporações não vislumbram ameaças à sua hegemonia.
Entretanto e para que o carro elétrico possa "vingar" há que resolver dois problemas, ambos relacionados com o sistema de armazenamento de energia - as baterias. A este nível coloca-se o preço (o que inflaciona definitivamente o custo das viaturas) e a sua autonomia. Se os atuais veículos comercializados teriam sucesso em ilhas como as dos Açores ou Madeira, ou em pequenas cidades, certo é que a sua massificação só ocorrerá quando conseguirem alcançar maiores distâncias entre cargas. A investigação continua tendo agora Toyota e a BMW anunciado uma parceira para desenvolvimento da próxima geração de baterias de automóveis que se espera vir a ser mais potente do que as de iões de lítio, usadas na maioria dos veículos eléctricos sendo capaz de gerar uma grande parte das necessidades de um carro a partir do consumo de ar. O resultado traduz-se em baterias mais potentes do que as utilizadas actualmente em carros eléctricos.
A nova bateria permitirá aos veículos percorrer cerca de 805 Km com uma carga. As duas empresas anunciaram que o novo sistema estará completo em 2020.
Fonte: IBM Research